Já conheci muita gente, principalmente depois que saí do armário e comecei a socializar mais, que tem interesse no anarquismo, ou até, como já ouvi, “só não se considera anarquista por falta de leitura sobre.” Então resolvi escrever esse texto para servir de ponte para quem tem curiosidade na corrente.

Por ser um texto relativamente breve e introdutório, vou abordar primeiro quais são as ideias gerais e depois entrarei nos autores e vertentes, evitando entrar na histórica por ser complexa e fugir muito a minha capacidade. Ao final vou deixar algumas referencias para quem quiser ir atrás.

O que é anarquismo?

Resumidamente, o anarquismo é um movimento que visa o fim de qualquer forma de opressão. É socialista, ou seja, luta pelo fim da propriedade privada e para que os trabalhadores sejam os donos dos meios de produção, pois entende que a exploração do trabalho é uma opressão. E é contra o Estado, pois entende que ele só pode existir pela aplicação da violência, e que ele garante que outras formas de opressão continuem existindo, como a propriedade privada. Seus princípios são a liberdade: Autonomia, direitos, não-imposição; e a igualdade: A inexistência de classes sociais, ou qualquer sistema de opressão (opressão de gênero, raça, sexualidade).

No pensamento anarquista, se entende que a luta nunca deve ocorrer pela via do Estado, porque isso acaba o validando e fortalecendo seu aparato repressivo. Ao invés disso anarquistas constroem organizações livres para atuar como uma forma de poder paralelo ao Estado, podendo ser organizações especificas anarquistas, coletivos, movimentos sociais (movimento negro, feminismo e LGBT são exemplos), sindicatos, e etc. No que diz respeito a melhorias na vida da população, os anarquistas entendem que devem vir pelas vias da ação direta, da apoio mútuo e da revolução social.

Ação direta é a principal tática de luta do anarquismo no dia a dia, a ideia é causar uma mudança na sociedade sem utilizar intermediários, principalmente do estado. O conceito de ação direta é bastante abrangente, e inclui desde greves e boicotes a pichação e Black Bloc, com cada organização dando preferência a seus métodos.

Apoio mútuo é a forma com a qual se substitui a necessidade do Estado e do Capitalismo, através de praticas solidárias. Também é um termo abrangente, que pode envolver desde uma associação de bairro a uma rede econômica abrangente. Para o anarquismo, a pratica do apoio mútuo não pode ser acompanhada da acumulação de recursos (como contratar assalariados), pois isso faria com que ela fosse apenas uma forma de reprodução da lógica capitalista. Ações de solidariedade, prestações de serviços, e diversas outras formas organizadas de ajudar o próximo se encaixam no conceito de apoio mútuo.

A revolução social é o objetivo final do anarquismo. Ela consiste no fim do estado e da propriedade privada. E também no nascimento de uma nova sociedade sem hierarquias, com um sistema político onde o povo é o protagonista e participa diretamente das decisões que afetam a sociedade, enquanto a economia seguiria uma lógica que não permite o acumulo de riquezas e a exploração do trabalho — Ou seja, o nascimento de uma sociedade anarquista. Diferentes vertentes do anarquismo tem propostas diferentes de como exatamente essa nova sociedade deve se organizar, ou de como se deve dar esse processo de revolução, mas TODAS visam este fim.

É importante observar que esses conceitos dialogam entre si, e podem parecer bastante vazios quando afastados uns dos outros. Uma pratica anarquista muitas vezes vai envolver todos eles ao mesmo tempo. A ocupação de um prédio, por exemplo, configura uma ação direta. Ao mesmo tempo em que esse prédio está ocupado, o espaço dele pode ser utilizado para a pratica da ajuda mútua, tornando o espaço solidário com a população que ali estiver. Ao mesmo tempo, se constrói lentamente a revolução, uma vez que a ocupação tendo participação ou sendo organizada por anarquistas, pode aproximar outras pessoas que fizeram parte da corrente e possivelmente de alguma organização.

Também é importante distanciar o anarquismo de algumas ideias e preconceitos que se pode ter sobre ele.

1- Primeiramente, anarquismo não é bagunça. Não é porque somos contra o estado que achamos que cada um pode fazer o que quiser. Temos regras e ética, a diferença é que acreditamos que essas regras tem que ser debatidas e discutidas por todos, para que os acordos sejam coletivos e nunca fruto da imposição de uma minoria dominante. Inclusive, o famoso símbolo anarquista do A desenhado em um circulo, significa “Anarquia é Ordem.”

2- Anarquismo não é uma “ditadura da maioria.” Lembramos que um dos princípios do anarquismo é a autonomia, isso significa que dificilmente imposições viriam da maioria. No federalismo (uma das propostas de organização) por exemplo, a não ser em questões imediatas, qualquer decisão que passe em uma instância estadual precisa ser decidida também em nível municipal ou qualquer que seja a instância mais baixa. Ou seja, é sempre de baixo para cima, e esse processo demanda muita energia para que se crie qualquer sistema de imposição.

3- Anarquismo e Black Bloc não são a mesma coisa. Black Bloc é uma tática de protesto contra o capitalismo que utiliza-se da ação direta. Enquanto ela é sim utilizada por muitos anarquistas, ela também é usada por pessoas de outras correntes socialistas. Isso não tira, claro, a legitimidade de ambos.

4- Anarquistas não são favoráveis a violência gratuita. Muitos anarquistas defendem o uso da violência como parte de suas estratégias, mas todo uso de violência deve ser justificado para que não se caia em autoritarismo ou esvaziamento. O mesmo vale para protestos, ninguém é a favor de sair por ai quebrando tudo que se vê pela frente, os alvos costumam ser símbolos do estado e do capitalismo, como grandes corporações. Também vale a nível individual, não tem nada menos anarquista que uma briga de bar porque um olhou torto para o outro.

Para evitar que o texto fique maçante, vou parar com a explicação mais geral por aqui. Vamos ver agora sobre os autores e vertentes (assim para ficar diferente do subtítulo :p )

Vertentes e autores

No caso do anarquismo, as vertentes são muito ligadas a autores. Essa ligação é tão forte, que na minha opinião, é praticamente impossível falar das vertentes teóricas do anarquismo sem falar de seus expoentes. Focarei mais nos clássicos e depois alguma atenção especial ao que eu conhecer da América Latina, então se seu favorito não apareceu, pode ter sido por isso. Alguns eu nunca li, pois a literatura anarquista é extensa, e ninguém é obrigado a saber de tudo. Então caso eu cite alguém muito superficialmente ou cometa algum equivoco, sinta-se livre para corrigir.

Preciso destacar que essas figuras históricas dialogam entre si, então muitas vezes a discordância e as criticas são mais contribuições que vertentes em si.

Se prepara pq a maioria é tudo home barbudo

Pierre-Joseph Proudhon, é o primeiro teórico a se considerar anarquista, porém, muita gente não o considera assim, rotulando-o como “proto-anarquista.” Isso se da porque ele possuía diversas contradições, e apesar de influenciar muito no pensamento anarquista, não ajudou a construir movimentos, chegando a participar em certo momento do parlamento francês. Quem seguia diretamente as ideias de Proudhon se chamava mutualista, mas hoje em dia já não existe um movimento mutualista. O trabalho de Proudhon foca muito na critica a propriedade privada e ao estado.

É praticamente impossível falar em autores anarquistas sem citar Mikhail Bakunin. Considera-se que ele foi o primeiro teórico anarquista, tendo ajudado a construir a Associação Internacional dos Trabalhadores. Suas teorias dialogam bastante com a perspectiva econômica de Marx, mas com uma visão bem diferente na questão do estado. Bakunin foi o primeiro anarquista a teorizar a revolução e diversas outras ideias importantes para o anarquismo. Mesmo quem discorda amplamente de suas teorias e é anarquista, indiretamente bebe de sua obra. O modelo econômico de sociedade defendido por Bakunin é conhecido como coletivismo ou anarco-coletivismo, onde não existiria acumulação de capital, e os frutos do trabalho seriam recebidos individualmente por cada trabalhador.

Piotr Kropotkin foi o primeiro teórico a propor uma economia comunista dentro do anarquismo. A vertente defendida por ele é conhecida como comunismo anarquista ou anarco-comunismo. Sua obra é muito direcionada para a área da educação e da geografia, pois era professor da área. Kropotkin rompe com muito da teoria Bakunista ao considerar a educação como fator indispensável para a construção da revolução.

Emma Goldman é a mais famosa das teóricas anarquistas, e ligava muito da opressão da mulher a questão de classe. Ela não se considerava feminista, porém é preciso observar que em sua época ainda ocorria a primeira onda do feminismo, que era amplamente liberal. Goldman criticou muito o feminismo de sua época, considerando o sufragismo por exemplo como uma mentira, que não traria mais liberdade a mulher. Hoje em dia muitas anarquistas e feministas resgatam sua obra. Ela influenciou muito na vertente moderna conhecida como anarca-feminismo.

Nestor Makhno, foi um oficial do exercito negro durante a revolução russa. Ele foi Anarco-comunista, e responsável pela concepção da vertente plataformista. No plataformismo, se entende que deve existir uma organização anarquista dentro dos movimentos dos trabalhadores, para construir o anarquismo. Essa organização deve ter por principio: A unidade ideológica, a unidade tática, responsabilidade coletiva e federalismo. O exercito negro foi responsável por combater o exercito branco (monarquistas) na Ucrânia, tendo um papel crucial na guerra civil.

Errico Malatesta militou na Itália na primeira metade do século XX e presenciou o levante do fascismo, sendo preso pelo regime e vindo a falecer na prisão. Ele propôs o dualismo organizacional, onde os anarquistas deveriam construir organizações anarquistas mas ao mesmo tempo agir em outros espaços de luta, como sindicatos (na época os sindicatos eram organizações livres não reconhecidas pelo estado). Diferente de muitos teóricos, Malatesta não entende a revolução como inevitável, entendendo que ela precisa ser construida ativamente, e é sujeita a falhas se essa construção não for eficaz. A obra de Malatesta influenciou bastante no surgimento da vertente especifista, que surgiu na América do Sul e se assemelha ao plataformismo.

Maria Lacerda de Moura era uma feminista de primeira onda e anarquista brasileira. Sua proximidade com o anarquismo lhe deu uma perspectiva libertaria e de classe no feminismo, valorizava muito a educação e a autonomia da mulher, e sempre via questões como a prostituição como uma opressão de sexo e exploração econômica, chegando a afirmar, já em 1917 que “a prostituição se origina na miséria.” Também nunca coloca a mulher como culpada de sua condição na sociedade em suas analises. Paradoxalmente, ela tinha muitas posturas conservadoras.

Concluímos por aqui esta introdução. Para quem tinha algum interesse em conhecer mais a corrente anarquista, espero ter saciado o máximo de duvidas, e que mesmo que encontremos discordância, você possa ter tirado algum aprendizado daqui. Devo ressaltar que mesmo compreendendo todos os autores citados e esses conceitos, o anarquismo antes de tudo é um movimento de luta dos oprimidos, e nenhum autor deve ser seguido sem um olhar critico. Deixo abaixo algumas referências para quem tiver interesse em se aprofundar.

Para quem se interessar mais:

https://www.youtube.com/watch?v=QxnYtyJxEfs - Esse vídeo é MUITO FODA, o cara explica o anarquismo como um conceito histórico. Evitei trabalhar essa abordagem justamente por esse vídeo já existir.

http://www.culturabrasil.org/zip/malatesta.pdf — Esse PDF junta alguns escritos menores do Malatesta. A forma como ele escreve é bem fácil de entender.

https://www.marxists.org/portugues/bakunin/1882/mes/deus.pdf - Essa obra de Bakunin contem parte das criticas dele a religião e a ordem social.

https://we.riseup.net/assets/160381/A%20conquista%20do%20p%C3%A3o%20Piotr%20Kropotkin.pdf - Esta é a obra mais famosa do Kropotkin, praticamente um manifesto. Seus textos costumam ser mais densos, e infelizmente só achei em pdf digitalizado.

https://anarquismopiracicabaeregiao.files.wordpress.com/2010/02/proudhon-o-que-e-a-propriedade.pdf - Essa é a tese do Proudhon sobre a propriedade privada. É uma leitura bastante densa, e também só encontrei digitalizado, mas recomendo muito para quem tiver mais tempo ou quem puder adquirir o livro fisico. Aviso desde já que Proudhon é bastante machista, e é preciso considerar isso na leitura.

Cito também duas organizações, para quem tiver interesse em conhecer movimentos, deixo o link para a pagina e para os sites:

A Coordenação Anarquista Brasileira(CAB) é uma organização especifista, com núcleos em diversos estados.

A Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionarias do Brasil (FOB), é uma organização sindicalista revolucionaria, não é anarquista, mas é exemplo de organização que é construida também por anarquistas.

E é isto, agradeço a leitura!